View archival description

Fonds BR SPAPESP IER - Inês Etienne Romeu
Reports

Identity area

Reference code

BR SPAPESP IER

Title

Inês Etienne Romeu

Date(s)

  • 1946 - 2015 (Creation)

Level of description

Fonds

Extent and medium


  • Dimensão: aproximadamente 3.000 documentos.
  • Suporte: meio magnético, metal, papel, papel emulsionado, plástico e vidro.
  • Gênero: audiovisual, bibliográfico, iconográfico, sonoro, textual e tridimensional.

Context area

Name of creator

Inês Etienne Romeu (1942-2015)

Biographical history

Inês Etienne Romeu nasceu em 22 de agosto de 1942, na cidade de Pouso Alegre (MG), filha de Paulo Romeu Junior e Maria Etienne Arreguy, teve sete irmãos. Formou-se no curso primário do Colégio Nossa Senhora do Carmo em Cataguases (MG) e no curso ginasial do Colégio São Domingos em Poço de Caldas (MG). Com a mudança da família para Belo Horizonte (MG), terminou o curso clássico no Colégio Marconi, em 1960.

No ano seguinte, 1961, ingressou no curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), passando a fazer parte do movimento estudantil e do Partido Socialista Brasileiro (PSB). No final do segundo ano de Sociologia, transferiu-se para o curso de História, da mesma universidade. Depois do golpe de 1964 passou à militância contra a ditadura, primeiramente na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop). Em 1962 Inês tornou-se funcionária do Banco Mineiro de Produção e do Banco do Estado de Minas Gerais (BEMGE), quando este foi criado em 1967 a partir da fusão do primeiro com o Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais. Nesse período frequentou o Sindicato dos Bancários e teve contato com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Inês abandonou a universidade em 1963, voltando ao curso de História da UFMG em 1965.

Acompanhando as unificações e divisões das organizações de oposição ao regime, Inês integrou além da Polop, o Comando de Libertação Nacional (COLINA), a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-Palmares) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), nesta última chegando a participar do Comando Nacional ao lado de Carlos Lamarca e Hebert Daniel.

Em 05 de maio de 1971, então afastada da VPR, Inês foi presa ilegalmente por agentes do Delegado Fleury do Deops em São Paulo (SP) sob acusação de ter participado do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, ocorrido meses antes no Rio de janeiro. No dia seguinte foi levada à cidade do Rio de Janeiro, onde tentou suicidar-se atirando-se na frente de um ônibus. Após breve passagem por diferentes hospitais militares, foi transferida para um centro clandestino de prisão e tortura em Petrópolis (RJ) onde permaneceu por 96 dias em cárcere privado sendo torturada, estuprada e levada a tentar várias vezes o suicídio. Mais tarde esta instalação usada pelos agentes do Estado brasileiro para praticar o terror contra opositores do governo ficou conhecida como a Casa de Petrópolis e, ainda, a Casa da Morte. Entre todos os militantes que passaram pelo local Inês foi a única sobrevivente conhecida.

Inês conseguiu escapar da morte fingindo aceitar um acordo com os agentes da repressão, e foi levada em 11 de agosto de 1971 para a casa de uma irmã em Belo Horizonte (MG). Resgatada por familiares e amigos, foi então levada para a Clínica Pinel, pesando pouco mais de 30kg. Cinco dias depois foi internada na Casa de Saúde Santa Maria na mesma cidade onde permaneceu por três meses. Em novembro de 1971, por esforço da família e de seu advogado Augusto Sussekind de Moraes, teve sua prisão legalizada. Foi enviada para o Rio de Janeiro (RJ) e encarcerada em vários estabelecimentos da Vila Militar até fevereiro de 1973, quando foi transferida para o Pavilhão de Segurança Nacional do Instituto Penal Talavera Bruce do Sistema Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro.

Foi condenada à prisão perpétua em agosto de 1972, pela 3º Auditoria do Exército, por crime de sequestro e morte. Essa condenação foi modificada para trinta anos de reclusão em maio de 1977, pois após revisão concluiu-se que Inês não havia cometido crime de morte.

Em 1975 casou-se com Jarbas Silva Marques, antigo namorado da adolescência e também preso político. O casamento foi principalmente um ato político, com o objetivo de proteger a integridade física de Inês. Divorciaram-se oficialmente em 1984.

Beneficiada pela Lei 6.683/79 conhecida como Lei da Anistia, Inês saiu da prisão em 29 agosto de 1979 sendo a última presa política a ser libertada no país.

Uma semana após sua saída Inês compareceu, acompanhada de familiares e amigos, à sede do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Nessa ocasião entregou documentos relacionados à sua prisão, incluindo um relatório escrito em 18 de setembro de 1971 que denunciava a existência e os acontecimentos referentes a Casa da Morte, fornecendo informações sobre seus torturadores e sobre a passagem de outros militantes pelo centro de tortura.

Em 03 de fevereiro de 1981, com o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), amigos e familiares, além de familiares de desaparecidos políticos, Inês reuniu uma comitiva que a acompanhou em caravana até Petrópolis quando finalmente conseguiu localizar a Casa da Morte, momento amplamente registrado pela imprensa. Enquanto esteve em cativeiro Inês havia guardado informações que foram decisivas para a localização do centro de tortura, como o número do telefone da casa onde foi mantida e o primeiro nome do proprietário, Mário. Inês enumerara 20 pessoas que trabalhavam na casa de Petrópolis, apenas quatro delas tiveram seu nome completo identificado. Dois dias depois, acompanhada pela irmã, a jornalista Lúcia Romeu, o advogado e deputado Modesto da Silveira e um fotógrafo, Inês identificou e denunciou em seu próprio consultório, o médico psiquiatra e psicanalista Amilcar Lobo. Colaborador das torturas no regime militar, Lobo apresentava-se como dr. Carneiro quando a atendia no cárcere em Petrópolis e lhe aplicava Pentotal, o chamado “soro da verdade”. Lobo teve seu registro médico cassado pelo CRM do Rio de Janeiro. Inês também entrou sem sucesso com um processo contra Mário Lodders, proprietário da casa de Petrópolis.

Logo após sua libertação Inês retomou os estudos e formou-se ao final de 1981 em Licenciatura Plena pelo Curso de História do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará. Nos últimos meses na universidade frequentou cursos de arquivologia e de documentação e pesquisa, um dos quais ministrado pela professora Ana Maria Camargo. Por intermédio desta, Inês foi contratada em janeiro de 1982 como historiógrafa na Divisão do Arquivo do Estado de São Paulo (DAE), durante a gestão de José Sebastião Witter. Em dezembro de 1983 foi nomeada diretora do Serviço de Arquivo Histórico da instituição e a partir desse momento diretora substituta do DAE, função que exerceu por longos períodos em decorrência de licença do titular, Witter. Já entre setembro de 1988 e 1990 Inês assumiu a direção do Arquivo do Estado, ocasionalmente dirigindo, em substituição, o Departamento de Museus e Arquivos (DEMA) da Secretaria da Cultura do Estado. Nesta secretaria Inês atuou nas gestões de Jorge da Cunha Lima (1984-1987), Bete Mendes (1987-1988) e Fernando Morais (1988-1991).

Durante seu período no Arquivo foi membro da Comissão Estadual de Arquivos, participou da criação do Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo (SAESP) além de fazer parte ativamente da constituição da Associação dos Arquivistas de São Paulo (ARQ-SP).

Ainda na administração pública, Inês exerceu cargo na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMC), como assessora do secretário Rodolfo Konder entre 1993 e 1995, e a partir de 2000 dirigiu o Grupo de Desenvolvimento Setorial da Coordenadoria de Desenvolvimento Econômico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo (SCTDE). Como representante desta secretaria Inês foi membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, do Grupo de Trabalho para acompanhamento do projeto de restauração do Palácio dos Campos Elíseos, do Conselho Deliberativo do Fórum de Desenvolvimento da Zona Leste e do Conselho Consultivo da Fundação PROCON. Em 2002, Inês participou com Ângela Mendes de Almeida, do projeto de pesquisa para a criação do Memorial do Cárcere, depois denominado Memorial da Liberdade e embrião do que é hoje o Memorial da Resistência da Secretaria da Cultura do Estado.

Suas atividades de pesquisa e história nos anos posteriores a saída do Arquivo Público se deram na Porto Calendário Serviços Técnicos, empresa da qual era sócia-administradora e que oferecia serviços como edição de livros, assessoria em pesquisas históricas, organização de acervos documentais, exposições, cursos, projetos e eventos culturais.

A partir de 1994 Inês passou a buscar sua “aposentadoria excepcional de anistiada”. Em agosto desse mesmo ano entregou requerimento protocolado ao Ministério do Trabalho, pleiteando uma “declaração de anistiada” com o fim de requerer aposentadoria junto ao INSS. Após diversas tentativas indeferidas consegue o benefício em 2001. Em 2009 recebeu o Prêmio Direitos Humanos na categoria Direito à Memória e à Verdade, outorgado pelo governo brasileiro e entregue pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva.

No ano de 2003, em episódio nunca esclarecido, Inês foi encontrada gravemente machucada em seu apartamento na rua Maria Antônia em São Paulo. Sofreu traumatismo cranioencefálico, o que a fez sobreviver o resto da vida com sequelas permanentes.

Anos depois, já em março de 2014, durante os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Inês pôde finalmente identificar, através de fotografias, 06 dos agentes do Estado que atuaram na Casa da Morte.

Inês Etienne Romeu viveu até os 72 anos, falecendo no dia 27 de abril de 2015 em sua casa em Niterói (RJ), em decorrência de um infarto, dormindo.

Fontes:

Cartas, noticiário, fotografias, processos judiciais, relatórios policiais, currículo, atos de nomeação e outros atos publicados em diários oficiais, comprovantes contábeis, e outros documentos do fundo Inês Etienne Romeu. APESP.

Relatório, depoimento e outros documentos relacionados com sua prisão apresentados por Inês Etienne Romeu ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (RJ). 1979. Fundo Inês Etienne Romeu. APESP.

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Reconhecimento fotográfico de agentes da repressão que atuaram na Casa da Morte por Inês Etienne Romeu. 2014.

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Audiência Pública sobre a Casa da Morte de Petrópolis. Depoimentos de familiares e amigos de Inês Etienne Romeu, Maria Celina Romeu, Sérgio Soares Ferreira, Clayton Rennó e Modesto da Silveira. 2014.

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Audiência Pública sobre a Casa da Morte de Petrópolis. Relatório. 2014.

COMISSÃO DA VERDADE DO MUNICÍPIO DE PETRÓPOLIS. Depoimento de Antônio Henrique Lago. 2018.

MOREAU. André. Modesto da Silveira: um homem de coragem. IDEA. 2016.

FERNANDES, Letícia. Casamento como ato político na ditadura. Reportagem de O Globo. 2015. https://oglobo.globo.com/brasil/casamento-como-ato-politico-na-ditadura-17684694

ROMEU, Lúcia. A casa de horrores e o médico da tortura. Uma denúncia irrefutável. In: Molica, Fernando (org.). Dez Reportagens que abalaram a ditadura. Editora Record. Rio de Janeiro. 2005.

TELES, Janaína de Almeida. Memórias dos Cárceres da Ditadura: os testemunhos e as lutas dos presos políticos no Brasil. Tese de doutorado em História Social. FFLCH/USP. São Paulo. 2011.

http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/ines-etienne-romeu/index.html

https://afala.com.br/as-varias-vidas-de-ines-etienne-romeu/

Archival history

Os documentos de Inês Etienne Romeu estiveram sob a guarda de seus familiares e amigos desde 2003, ano de seu acidente, e após sua morte em 2015.

A doação do acervo ao Arquivo Público do Estado de São Paulo foi realizada no final de abril de 2018, por sua irmã Anitta Etienne Romeu (1).

O processo de doação foi mediado pela professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Ana Maria de Almeida Camargo, que fez um parecer sobre a doação, no qual destaca a importância desse acervo: "Inês Etienne Romeu colecionou de modo sistemático todo e qualquer tipo de material que, focalizando o regime militar sob a forma de trabalho acadêmico, reportagem, relatório, memória, depoimento, notícia ou mesmo obra de ficção, pudesse contextualizar sua história pessoal, tragicamente marcada pela prisão e pela tortura, e a de seus companheiros de militância política. As denúncias que caracterizaram sua biografia, e que a singularizaram pela ousadia e coragem, também se fazem representar no acervo, ao lado dos instrumentos jurídicos inovadores de que se valeu para sustentar suas posições"(2).

Os documentos passaram por identificação preliminar e reacondicionamento no Centro de Acervo Permanente do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

(1) Carta de doação de Anitta Etienne Romeu de 11 de abril de 2018. Expediente SG/336527/2018. Processo de Transferência de Acervos Arquivístico, Bibliográfico, Museológico ou Artístico.
(2) Parecer da Professora Ana Maria de Almeida Camargo, de 12 de abril de 2018, sobre a doação do acervo privado de Inês Etienne Romeu ao Arquivo Público do Estado de São Paulo. Expediente SG/336527/2018. Processo de Transferência de Acervos Arquivístico, Bibliográfico, Museológico ou Artístico.

Immediate source of acquisition or transfer

Content and structure area

Scope and content

O acervo mostra a riqueza das atividades desempenhadas por Inês Etienne Romeu. É composto por documentos que retratam sua vida pessoal, profissional e política. De especial interesse estão as fotografias, relatórios e demais documentos que representam a época em que esteve presa e o período imediatamente posterior, quando lutou incansavelmente pela revelação dos horrores do regime militar.

Da vida profissional destacam-se as fotografias e documentos relativos as atividades e eventos no Arquivo Público do Estado de São Paulo num período em que procurava-se consolidar a arquivística e a gestão documental no estado.

O acervo contém documentos como aerogramas, telegramas, cartas, bilhetes, cartões, ofícios, memorandos, requerimentos, fotografias, artigos acadêmicos, poemas, convites, noticiário, comprovantes de rendimento, demonstrativos de pagamento, desenhos, charges, diplomas, carteiras de identificação, certificados, certidões, guias de pagamento, anotações, processos, currículos, relatórios, histórico escolar, atestados, programa de curso, programas de evento, prontuários, entrevistas, livros, medalha, quadro, pôster e prêmio.

Appraisal, destruction and scheduling

Accruals

System of arrangement

Fundo não tratado arquivisticamente. Documentos preliminarmente ordenados em 20 caixas.

Conditions of access and use area

Conditions governing access

Sem restrição de acesso.
Fundo em tratamento técnico. Disponível para consulta através de agendamento.

Conditions governing reproduction


  • Reprodução de documentos textuais: o pesquisador que tenha interesse em reproduzir algum documento do acervo textual poderá fazê-lo com máquina fotográfica própria, mediante acompanhamento dos técnicos responsáveis, preenchendo o Termo de Responsabilidade no qual se compromete a atribuir os créditos ao Arquivo Público do Estado e declara estar ciente das penalidades previstas por lei quanto à divulgação destas informações.
  • Reprodução de documentos iconográficos: É permitida a reprodução fotográfica digital em baixa resolução, sem a utilização de equipamentos auxiliares, como flash e tripé mediante o preenchimento do Termo de Responsabilidade.
  • Serviço de digitalização: solicitações de digitalização são limitadas a uma quantidade máxima de documentos e exigem preenchimento do Termo de Responsabilidade. A digitalização de fotografias será realizada pelo Núcleo de Acervo Iconográfico. Caso a fotografia já esteja reproduzida em microfilme ou arquivo digital, a cópia deverá ser obrigatoriamente produzida a partir da matriz.
  • Direito autoral: no caso de obras que não sejam de domínio público, a utilização é de responsabilidade exclusiva do usuário e depende da autorização expressa dos detentores dos direitos, ou na forma da Lei de Direito Autoral (Lei 9.610 de 16 de fevereiro de 1998).

Language of material

Script of material

Language and script notes

Physical characteristics and technical requirements

O Arquivo Público do Estado de São Paulo não dispõe de aparelhos para leitura de áudio cassetes, vídeo cassetes e disquetes.

A maior parte dos documentos está em bom estado de conservação, podendo apresentar sujidade e necessidade de pequenos reparos.

Documentos digitalizados ou microfilmados devem preferencialmente ser acessados através de suas cópias preservando os originais.

Finding aids

Listagem de documentos.

Allied materials area

Existence and location of originals

Existence and location of copies

Related units of description

Notes area

Access points

Subject access points

Place access points

Name access points

Description control area

Description identifier

Institution identifier

BR SPAPESP

Rules and/or conventions used

Status

Level of detail

Dates of creation revision deletion

2019

Language(s)

Script(s)

Sources

Archivist's note

Centro de Acervo Permanente / APESP

Digital object metadata

Digital object (Master) rights area

Digital object (Reference) rights area

Digital object (Thumbnail) rights area

Accession area

Actions